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Especialistas dão dicas para a publicação de artigos científicos


Por Karina Toledo


Agência FAPESP – Editores de revistas científicas procuram trabalhos com resultados inéditos, escritos em inglês claro e conciso e que despertem interesse em seu grupo de leitores. Artigos que abordam temas quentes do momento levam vantagem, pois têm mais chance de serem citados em futuras pesquisas e de contribuírem para aumentar o fator de impacto do periódico.


Essas foram algumas das dicas apresentadas por Daniel McGowan, diretor do Grupo Edanz, durante o workshop “How to Write for and Get Published in Scientific Journals”, realizado no dia 16 de março pela FAPESP e pela editora científica Springer.


Desde 1990, o número de artigos submetidos para revisão teve um aumento 100% superior ao do número de novos periódicos, segundo dados do Grupo Edanz, empresa de consultoria na área. Com o crescimento da competição, de acordo com McGowan, “o mínimo que os editores esperam é ciência de qualidade e linguagem adequada”.


“A pesquisa brasileira é boa, mas vejo dois grandes desafios a serem superados pelos pesquisadores do país: a dificuldade com a língua inglesa e a falta de entendimento de como deve se estruturado um artigo científico. Muitos parecem não saber o que colocar na introdução, na discussão e na conclusão do trabalho”, disse McGowan à Agência FAPESP.


Durante sua apresentação no workshop, McGowan explorou o tema e deu exemplos de como estruturar um resumo, como inserir tabelas, gráficos e figuras no texto, como formatar referências e escolher o título e como elaborar uma carta de apresentação ao editor. Deu também dicas sobre o tempo verbal mais adequado nas diferentes situações e recomendou aos cientistas redigir frases na voz ativa e deixar sempre o sujeito da oração perto do verbo.


“Grande parte das pessoas que vão ler o artigo científico também não tem o inglês como primeira língua. O que elas desejam é ler rapidamente, apenas uma vez e conseguir entender a lógica do pesquisador”, destacou.


Para McGowan, ex-editor associado da Nature Reviews Neuroscience, o primeiro passo para melhorar a qualidade da produção científica é a leitura do maior número possível de artigos publicados.


“Isso ajuda o pesquisador a saber se está fazendo as perguntas certas, usando os métodos adequados, interpretando os resultados no contexto apropriado, citando os estudos mais relevantes da área e escolhendo o periódico com o perfil indicado para sua pesquisa”, disse.


Como cada publicação tem regras próprias para estruturar o texto e citar referências, a redação do artigo só deve começar após estar definida a revista para a qual ele será submetido.


“O pesquisador deve ser honesto ao avaliar o grau de relevância e novidade da pesquisa e escolher um periódico com fator de impacto compatível. Ela traz um avanço incremental ou conceitual? Afeta a vida de uma pequena população ou de milhares de pessoas? Melhora o conhecimento sobre um fenômeno ou apresenta uma nova tecnologia?”, exemplificou McGowan.


O pesquisador deve ainda considerar fatores como o perfil do público a ser atingido, o prestígio da publicação e se ela trabalha como sistema de acesso aberto ou assinatura. “Acesso aberto permite alcançar um número maior de leitores e, portanto, gera mais citações. Mas também tem um custo muito maior”, disse.


Segundo McGowan, um artigo nunca deve ser enviado a mais de um periódico ao mesmo tempo. “Por outro lado, se um pesquisador demora muito para publicar suas descobertas, pode ocorrer de outro grupo publicar antes. Recomendo, portanto, entrar em contato com o editor caso não receba retorno após seis semanas. Se depois de dois meses ainda não houver resposta, sugiro cancelar formalmente a submissão e só então enviar para outra revista”, afirmou.


Outra dica do consultor é relatar no fim do artigo os financiamentos recebidos de agências de fomento ou de outras instituições e empresas, descrever possíveis conflitos de interesse e as limitações do trabalho, como tamanho pequeno da amostra por exemplo.


“Os editores percebem quando há falhas ou limitações na pesquisa, mas ainda assim podem publicá-la se os resultados forem interessantes. Não mencionar esses fatores, porém, pode ser um motivo para rejeição”, disse.


Pesquisa brasileira


Na abertura do workshop, o vice-presidente da editora Springer, Paul Manning, contou que o motivo que levou a empresa a abrir um escritório no Brasil foi o crescimento expressivo da produção científica do país.


“A Springer surgiu na Alemanha no século 19 e foi para Nova York após a Segunda Guerra, pois era onde a ciência estava acontecendo. Nos anos 1970, fomos para o Japão pelo mesmo motivo. Agora, percebemos que havia muita coisa interessante aqui no Brasil”, disse. A Springer atualmente está presente em 20 países.


Segundo dados apresentados pelo diretor da Springer Brasil, Harry Blom, a produção científica brasileira cresce a uma taxa de 17% ao ano – enquanto a média mundial é de 3% – e já corresponde a 55% da produção científica da América Latina.


Mariana Biojone, editora da Springer Brasil, apresentou as ferramentas gratuitas oferecidas no site da empresa para apoiar pesquisadores. Uma delas é o Author Mapper, que mostra os temas mais pesquisados do momento e em quais centros. “Isso pode ajudar o cientista a encontrar colaboradores para seu projeto”, afirmou.


As apresentações do evento estão disponíveis em: www.fapesp.br/6848 


Fonte: Agência FAPESP


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Teste facilita diagnóstico de diarreias agudas


Por Karina Toledo
Agência FAPESP – Um kit semelhante ao dos testes de gravidez vendidos em farmácia foi desenvolvido no Instituto Butantan para ajudar a diagnosticar a causa da diarreia aguda, doença que mata anualmente 1,5 milhão de crianças menores de 5 anos no mundo, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS).
O exame é capaz de detectar três categorias da bactériaEscherichia coli, responsável por 30% a 40% dos casos nos países em desenvolvimento. Basta colocar uma tira de papel em uma amostra de fezes previamente preparada e, em 15 minutos, linhas vermelhas indicam se um dos três tipos do bacilo está presente.
“Existem seis categorias de E. coli capazes de causar diarreia, cada uma com diferentes características de virulência e epidemiológicas”, explicou a pesquisadora Roxane Maria Fontes Piazza, que coordenou o projeto “Imunodiagnóstico de Escherichia coli diarreiogênica”, financiado pela FAPESP.
O teste abrange duas categorias consideradas endêmicas no Brasil: a enteropatogênica (EPEC) e a enterotoxigênica (ETEC). Detecta também a E. coli produtora da toxina de Shiga (STEC), que, embora seja rara no país, preocupa os órgãos de saúde por causar formas graves da doença, podendo levar à colite hemorrágica e à falência renal.
“Há outra categoria bastante comum no Brasil que ficou de fora, a enteroagregativa (EAEC). Isso porque ela não produz uma proteína-alvo que permita sua identificação em testes desse tipo”, explicou Piazza.
Piazza coordena há 13 anos projetos de pesquisa apoiados pela FAPESP para melhorar o diagnóstico das infecções por E. coli. Os primeiros trabalhos obtiveram os anticorpos contra as proteínas ou toxinas produzidas por essas três categorias da bactéria. Em seguida, os anticorpos foram testados em outros métodos de diagnóstico para avaliar sua sensibilidade.
“Quando estávamos com todos os anticorpos em mãos, decidimos padronizar esse kit para realização do exame imunocromatográfico. Esse método é mais rápido, mais fácil de ser executado e tem custo acessível, podendo ser usado em qualquer laboratório clínico”, disse Piazza.
O trabalho resultou no doutorado de Letícia Barboza Rocha, realizado com Bolsa da FAPESP.
Como funciona
O kit é composto por uma fita de 6 centímetros de comprimento por 0,5 centímetro de largura. Nessa fita, três tipos de papel foram sobrepostos em uma base plástica.
“No início tem uma fibra de celulose de alta absorção, responsável por puxar a amostra e levá-la até a região da fita onde estão os reagentes. Em seguida vem a fibra de vidro, onde estão fixadas pequenas partículas de ouro chamadas de ouro coloidal. Nessas partículas esféricas, de apenas 20 nanômetros de diâmetro, estão aderidos os anticorpos”, explicou Rocha.
Os antígenos da bactéria, quando presentes, são absorvidos pela fibra de celulose, ligam-se aos anticorpos aderidos ao ouro coloidal e continuam pela fita até chegar a uma membrana de nitrocelulose, na qual sai o resultado do teste.
“Há várias linhas nessa membrana e o que determina qual é a categoria de E. coli presente na amostra é a região em que as linhas aparecem na fita. A reação é considerada positiva quando as duas linhas, teste e controle, apresentam-se coloridas”, disse Rocha.
A função do ouro é tornar as linhas visíveis. Para garantir a sensibilidade do método, porém, a fita não deve ser colocada diretamente nas fezes. Alguns tipos de E. coli produzem quantidades muito pequenas de toxinas, que passariam despercebidas no exame.
“É preciso colocar a amostra de fezes em um caldo de cultivo e deixar as bactérias se multiplicando de um dia para outro. A fita deve então ser colocada nesse caldo”, disse Rocha.
A ideia é que o kit seja usado em hospitais e laboratórios clínicos para acelerar a detecção da bactéria, o que ajudaria profissionais de saúde a tomar medidas de prevenção, de modo a evitar que surtos se alastrem, e a adotar condutas terapêuticas adequadas.
Segundo Piazza, o usual na rotina clínica é o médico não pedir exames e fazer o diagnóstico com base apenas na análise dos sintomas. “Só quando o quadro é mais persistente ou quando se suspeita da bactéria produtora da toxina de Shiga é que se manda uma amostra para um laboratório de referência analisar. Os demais laboratórios usam métodos antigos e pouco precisos”, disse.
Embora a montagem do kit já tenha sido concluída, o método ainda precisa ser validado. Piazza estima que o processo leve cerca de dois anos. “Antes de colocá-lo no mercado precisamos patentear e analisar questões comerciais, como a estabilidade de armazenamento”, explicou.
Enquanto isso não ocorre, Piazza coordena um novo projeto de pesquisa, também financiado pela FAPESP, com o objetivo de viabilizar a produção dos anticorpos em larga escala. 

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64ª Reunião Anual da SBPC em São Luís - MA

É isso mesmo!
Dos dias 22 a 27 de julho acontecerá na Universidade Federal do Maranhão - UFMA, a 64ª Reunião Anual da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência - SBPC, com o tema: Ciência, Cultura e Saberes Tradicionais para Enfrentar a Pobreza. As inscrições estão sendo realizadas no site http://www.sbpcnet.org.br/saoluis/home/, até o dia 11/07 sem submissão de resumo, e dos dias 22 a 25/07 no local do evento. O último prazo pra quem quer realizar a submissão de resumos é o dia 02/04, podendo enviar o resumo até 09/04/12, também pelo site (citado acima) do evento.

Nada mais justo pra ajudar na comemoração dos 400 anos de São Luís: um evento tão importante de C&T!

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Rede Social Para Cientistas

Criada na Alemanha, a plataforma gratuita ResearchGate, que funciona como uma rede social para cientistas, ultrapassou a marca de 1 milhão de usuários, a maioria pesquisadores de diversos assuntos e países. De acordo com os administradores do site, há 35 mil brasileiros inscritos e cerca de 30 contas do Brasil são registradas diariamente.
A proposta foi criada em 2008 pelo médico alemão Ijad Madisch, e tem como objetivo facilitar a comunicação e a troca de experiências entre pessoas que atuam na mesma área de investigação, como biologia, geociência, estudos sociais, estudos religiosos, medicina e ciência espacial. Os cientistas podem receber informações sobre os trabalhos de colegas do mundo inteiro por meio de grupos de discussão e fóruns de perguntas e respostas.
Um dos benefícios da ResearchGate, para Madisch,é que as pessoas recebem até mesmo informações sobre as experiências que não deram certo, para evitar a repetição de equívocos. “Grande parte dos recursos gastos em uma pesquisa acaba cobrindo experiências malsucedidas, que não ganham espaço nas publicações”, disse.
Os perfis são estruturados como se fossem um currículo científico, facilitando a busca por área de atuação e os usuários podem adicionar um índice com suas publicações e um blog pessoal. Além disso, há uma bolsa de empregos que oferece mais de 13 mil vagas em instituições e áreas de interesse.
Também há um calendário, como no Facebook, informando os participantes sobre eventos científicos de todos os tipos.
Quer saber mais? Acesse: http://www.researchgate.net/

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Hemofilia B é tratada com terapia gênica


Após 20 anos de expectativa e tentativas fracassadas, a primeira experiência clínica bem sucedida com terapia gênica acaba de ser anunciada em pacientes com hemofilia B . Trata-se de  uma forma mais rara de hemofilia que afeta 1 em cada 30.000 indivíduos do sexo masculino. A pesquisa realizada por um grupo grande de pesquisadores do Reino Unido e Estados Unidos, envolvendo 6 pacientes,  foi publicada na mais importante revista médica internacional, New England Journal of Medicine. Sem dúvida, um passo muito importante.
Recordando
A hemofilia é uma doença caracterizada por uma deficiência de coagulação do sangue. Os sintomas incluem hemorragias nas articulações, dores intramusculares e sangramentos constantes. Qualquer machucado pode ter consequências graves. Na forma mais comum, a hemofilia A ( que corresponde a 80% dos casos), há a deficiência do fator de coagulação VIII, enquanto na forma B, que atinge 20% dos casos, o defeito está no fator de coagulação IX.  As duas formas são causadas por genes recessivos, que estão no cromossomo X e por isso, com raras exceções só o sexo masculino é afetado. Isso porque a mulher tem dois cromossomos X e se tiver uma mutação em um gene presente em um dos X, a cópia normal do gene no outro cromossomo X dá conta do recado, o que fará com que ela seja portadora, mas assintomática. Entretanto, a mulher portadora tem um risco de 50% de transmitir o cromossomo com o gene defeituoso para a sua descendência de sexo masculino que será clinicamente afetado.
Como é o tratamento atual?
O tratamento é feito com injeções frequentes, 2 a 3 vezes por semana de um concentrado de  fator IX,  uma proteína que é crítica para a coagulação do sangue. Entretanto esse tratamento que é extremamente caro é profilático e não representa uma cura. Por isso, a possibilidade de usar outras estratégias terapêuticas tais como a terapia gênica na busca de uma cura definitiva  tem sido objeto de muita investigação.
Como foi feita a pesquisa com terapia gênica?
Os cientistas inseriram uma cópia normal do gene da hemofilia B em um vírus especial, o adenovírus AAV8. Esse vírus tem a característica de direcionar-se para o fígado quando injetado, o que permitiu que ele fosse administrado na veia,  um procedimento simples e não invasivo. Os seis pacientes, com idades entre 27 e 64 anos foram divididos em 3 grupos que receberam respectivamente uma dose pequena, média e alta do vírus. Os pacientes foram seguidos entre 6 e 16 meses.
Quais foram os resultados?
Uma única injeção permitiu que os pacientes produzissem o fator IX em quantidade suficiente para que quatro dentre eles pudessem interromper o tratamento convencional, isto é, as injeções de concentrado de fator IX. Nos outros dois, os intervalos entre as  injeções puderam ser aumentados. Os melhores resultados foram observados nos pacientes que receberam a dose mais alta do vírus. O trabalho gerou grande entusiasmo e pode ser um marco  nos tão esperados tratamentos resultantes de terapia gênica. Além dos benefícios para os pacientes a redução de custo é astronômica. De acordo com a Dra. Katherine Ponder, uma especialista no assunto, o tratamento convencional com o concentrado custa 300.000 dólares por ano, podendo chegar a 20 milhões de dolares durante a vida enquanto uma injeção única do vírus custaria 30.000 dólares.
Apesar de alguns efeitos colaterais o experimento é promissor e pode significar um divisor de águas  em potenciais tratamentos envolvendo terapia gênica.  Mas serão necessárias  novas pesquisas clínicas para ajustar a dose ideal.  Além  disso antes de  considerar esse ensaio terapêutico um tratamento reconhecido para hemofilia será necessário repetir o experimento com um número maior de pacientes seguidos por mais tempo . Mas certamente, há motivos para otimismo.
Por Mayana Zatz


Fonte: Revista Veja

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Dieta determina bactérias intestinais

Maria Guimarães



Carne e gordura: Bacteroides
Agora é possível, a partir de uma amostra de fezes, determinar certas características da dieta de uma pessoa. Se carne e gorduras forem o alimento dominante, as bactérias mais frequentes serão do gêneroBacteroides. Já quem prefere comer carboidratos e açúcares simples tem o intestino repleto de Prevotella. “Essas bactérias podem ou não estar associadas à causa de doenças”, pondera Christian Hoffmann, biólogo brasileiro da Universidade Federal de Goiás. Ele participou do estudo que determina o perfil bacteriano – ou enterotipo – ligado à dieta, liderado por Gary Wu, da Universidade da Pensilvânia, nos Estados Unidos, onde o brasileiro faz parte de sua pesquisa de doutorado. O artigo foi publicado hoje (1º/09) na edição on-line da Science (Sciencexpress).

Quem já levou bronca do médico sabe muito bem que uma dieta rica em gorduras aumenta o risco de doença cardíaca; a novidade agora está em incluir na equação as bactérias (microbiota) que vivem no intestino e são essenciais na digestão humana, no desenvolvimento do sistema imune, entre outras contribuições. É possível que problemas de saúde criem um ambiente alterado no sistema digestivo que acabe propiciando a proliferação de um tipo de bactéria em detrimento de outro. Mas Hoffmann alerta: não se pode descartar que a própria microbiota dê origem a processos inflamatórios e seja nociva à saúde. Há, por exemplo, uma associação entre certas bactérias e a doença de Crohn, uma inflamação intestinal crônica. Resta descobrir qual é causa e qual é consequência.

A grande surpresa do estudo da Science foi verificar que parte da microbiota varia de imediato conforme a alimentação, mas as bactérias dominantes são mais estáveis: o enterotipo se mantém mesmo com alteração na dieta, pelo menos ao longo de um experimento de dez dias. Por isso, caso venha a ser comprovada uma relação causal entre bactérias e problemas de saúde, não basta fazer uma semana de dieta. “Além de poder indicar uma mudança de longo prazo na alimentação, seria ótimo poder dar um iogurte bem específico para alterar a microbiota”, imagina o pesquisador.

A descoberta ainda é inicial e, mais do que trazer respostas, reforça uma maneira integrada de pensar na saúde, levando em conta uma comunidade de organismos. Afinal, no corpo de qualquer pessoa há dez vezes mais bactérias do que células humanas. “A gente não é simplesmente humano, somos metaorganismos”, resume Hoffmann.

Mais sobre a relação entre bactérias e seres humanos na reportagem Aliados inesperados


Agência FAPESP

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Vem aí o SEPPIE 2011


Inscrições: 25/07 - 15/08






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Mecanismo molecular desvendado


20/06/2011
Por Elton Alisson

Agência FAPESP – Pesquisadores do Laboratório de Nefrologia Celular, Genética e Molecular do Departamento de Clínica Médica da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP) deram um passo importante para ampliar o entendimento sobre o mecanismo de uma doença que afeta uma em cada 400 a 1.000 pessoas em todo o mundo. Eles elucidaram as propriedades moleculares estruturais de parte de uma proteína que exerce um importante papel para o surgimento da doença renal policística autossômica dominante (DRPAD).
A doença, que é caracterizada pela formação de diversos cistos (dilatações cheias de líquido) nos rins, fígado e outros órgãos, é causada por uma mutação nos genes PKD1 (Policystic Kidney Disease 1) ou PKD2, em decorrência da perda da função das proteínas produzidas por eles: respectivamente, a policistina-1 (PC1) e a policistina-2 (PC2), cuja atividade é controlada pela primeira.
Canal de cátions não seletivos com permeabilidade ao cálcio, a PC2 possui uma cauda, denominada extremidade intracitosólica carboxi-terminal (PC2t), que desempenha um papel muito importante na interação física da PC2 com diversas proteínas, incluindo a PC1.
Devido à grande importância dessa parte da proteína, os pesquisadores brasileiros decidiram analisar, pela primeira vez, o arranjo macromolecular do complexo de proteínas (homo-oligômero) formado pela PC2t, utilizando uma série de técnicas de análises moleculares, biofísicas e bioquímicas.
Resultado da pesquisa de pós-doutorado do físico Frederico Moraes Ferreira, intitulada “Análise estrutural de proteínas relacionadas à doença renal policística autossômica dominante”, realizada com Bolsa da FAPESP, o estudo foi publicado na revista Proceedings of the National Academy of Sciences.
“Trata-se de uma pesquisa muito importante na área de biofísica, por elucidar as propriedades estruturais do domínio intracitosólico carboxi-terminal da policistina-2, que tem enorme importância biológica”, disse Luiz Fernando Onuchic, coordenador do Laboratório de Nefrologia Celular, Genética e Molecular da FMUSP e um dos autores da pesquisa, à Agência FAPESP.
As técnicas utilizadas pelos pesquisadores para analisar a PC2t, que incluíram, entre outras, espectroscopia de massa, espalhamento de raios X a baixos ângulos e espalhamento dinâmico de luz, foram conduzidas em experimentos feitos no Instituto de Física da USP de São Carlos e no Laboratório Nacional de Luz Síncrotron (LNLS), em Campinas (SP).
Por meio delas, os pesquisadores puderam observar que a PC2t é capaz de se organizar como um homotetrâmero (composta por quatro unidades da proteína), independentemente de qualquer outra porção da molécula. E essa organização tetramérica ocorre tanto na presença quanto na ausência do cálcio.
Para validar esses dados experimentais, o grupo iniciou uma colaboração com pesquisadores do Centro de Física Biológica Teórica da Universidade da Califórnia, em San Diego, nos Estados Unidos, para fazer a análise teórica. Os resultados das simulações de dinâmica molecular realizadas no laboratório norte-americano validaram as análises experimentais realizadas pelos pesquisadores, no Brasil.
“Demonstramos tudo do ponto de vista experimental e depois fizemos as análises de estimulação dinâmica molecular e demonstramos que elas estão de acordo”, disse Onuchic.
Segundo ele, o modelo molecular da PC2t deverá servir de ponto de partida para que se passe a focar em questões direcionadas à arquitetura da PC2, assim como nos papéis desempenhados por elas no mecanismo da doença.
“Na medida em que formos capazes de elucidar as propriedades estruturais dessa extremidade da PC2t, da arquitetura da PC2 e do mecanismo da doença, abrem-se perspectivas muito boas para o avanço nos mecanismos de compreensão da doença e, em última instância, na possibilidade de geração de drogas que possam ser utilizadas para tratá-la”, afirmou.
No momento ainda não existe um tratamento específico para a doença que, segundo estimativas, afeta mais de 600 mil pessoas nos Estados Unidos e é responsável por 10% das insuficiências crônicas dos rins, em que as únicas opções para os pacientes são a diálise ou o transplante dos rins.
No Brasil, onde não há dados oficiais sobre o número de pessoas afetadas pela doença, calcula-se que ela represente 7,5% dos casos de doença renal crônica terminal na região Sul do país.
O artigo Macromolecular assembly of polyscystin-2 intracytosolic C-terminal domain(doi: 10.1073/pnas.1106766108), de Luiz Fernando Onuchic e outros, pode ser lido por assinantes daPNAS em www.pnas.org/cgi/doi/10.1073/pnas.1106766108.

Fonte: Agência FAPESP

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Aprendendo com o inimigo



18.02.11
Por Mônica Pileggi


Agência FAPESP – Compreender a interação natural entre duas proteínas para inibir a divisão de uma bactéria – e, dessa forma, possivelmente evitar a sua proliferação – é tema de proposta aprovada na chamada da Rede de Biologia Estrutural em Tópicos Avançados de Ciências da Vida – SMOLBnet 2.0.


O projeto "SMOLBnet 2.0: combinando genética e RMN para dissecar interações proteína-proteína fundamentais para o funcionamento do complexo de divisão bacteriana", coordenado pelo professor Frederico José Gueiros Filho, do Departamento de Bioquímica do Instituto de Química da Universidade de São Paulo, pretende estudar como a proteína conhecida como FtsZ interage com outras duas presentes na bactéria: MinC e MciZ.

A equipe do laboratório de Gueiros há anos vem desvendando o que se passa dentro das células das bactérias, especificamente o trabalho das proteínas que promovem a divisão.

“Existe um grupo de cerca de 20 proteínas especializadas em executar a divisão das bactérias. O maestro de todas é a FtsZ. Ela é interessante porque tem a capacidade de encontrar o exato local onde a célula precisa se dividir. Ao formar uma ‘cintura’ na parte interna da bactéria, ela atrai outras proteínas de divisão para esse anel que acabou de formar”, disse Gueiros à Agência FAPESP.

São essas proteínas atraídas por FtsZ que alteram a parede externa da bactéria. No momento da divisão, a parede da bactéria para de se expandir no comprimento e passa a crescer para dentro, formando um disco ou septo, que separa a bactéria em duas células filhas.

Um aspecto importante do processo de divisão é que ele precisa ser bem regulado e não pode ocorrer a qualquer momento. Para isso, a própria bactéria possui proteínas que funcionam como inibidores naturais da divisão. Um exemplo é a proteína MinC, que se liga à proteína FtsZ e impede que ela forme o anel de divisão na hora e locais errados.

Ao estudar o efeito da proteína MinC sobre FtsZ, a equipe deseja primeiro entender o processo natural de inibição da divisão. “Não há dúvidas, no entanto, de que as informações obtidas poderão servir de inspiração para o desenvolvimento de um antibiótico capaz de impedir a proliferação das bactérias. É como se fosse um processo de engenharia reversa: nós estudamos o inibidor da bactéria e usamos os princípios aprendidos para fazer o nosso inibidor”, explicou Gueiros.

Os testes do projeto, cujo início está previsto para março deste ano, serão realizados com Bacillus subtilis. “Essa bactéria, que vive no solo e não é patogênica, é o que chamamos de um sistema modelo. É um organismo muito fácil de ser estudado e que serve de exemplo para outros. Como o mecanismo de divisão é semelhante em todas as bactérias – todas têm FtsZ –, o que aprendemos com Bacillus subtilis é aplicável a muitas outras espécies, inclusive as patogênicas”, disse.

Formas complementares
As proteínas são formadas por diversas moléculas de aminoácidos encadeadas. Seu formato tridimensional globular lembra um coral esférico, com cavidades e saliências na superfície. Para ligar umas às outras, essas proteínas devem ter, além da afinidade química, uma complementaridade de formas.

Para saber que partes de FtsZ e MinC estão envolvidas nesse encaixe a equipe do Instituto de Química da USP já identificou mais de uma dúzia de mutantes de FtsZ, ou seja, variantes nas quais um aminoácido dessa proteína foi substituído e por isso elas deixaram de serem inibidas pela MinC.

“Quando localizamos a variação, aprendemos sobre o funcionamento da proteína. Observamos que as mutações estão muito próximas umas das outras. Isso nos dá um indício de que aquela região é importante para a proteína ligar-se a outra”, disse Gueiros.

Segundo ele, o próximo passo será refinar o estudo com o uso da ressonância magnética nuclear (RMN), uma técnica de alta precisão por meio da qual será possível observar quais são os átomos envolvidos na interação das proteínas estudadas.

“A ressonância magnética nuclear permite confirmar o que cada um desses mutantes representa no sítio de interação entre FtsZ e MinC. A técnica também irá expandir o que já encontramos sem o seu uso. Acreditamos que existam outros aminoácidos envolvidos nessa interação”, indicou.

O estudo conta com a colaboração da pesquisadora Ana Carolina de Mattos Zeri, coordenadora do Laboratório Multiusuário de Ressonância Magnética Nuclear do Laboratório Nacional de Biociências (LNBio), parte do Centro Nacional de Pesquisa em Energia e Materiais (CNPEM).

O grupo também pretende usar a ressonância para determinar a estrutura tridimensional de MciZ, a única das três proteínas cuja disposição dos átomos e seu mecanismo de inibição ainda são desconhecidos.

Além dos coordenadores, o projeto envolverá doutorandos e uma pós-doutora. Há interesse também na incorporação de mais um pós-doutor.

“Haverá sinergia de expertises, como divisão bacteriana e ressonância magnética nuclear. Pretendemos unir essas duas especialidades para fazer uma ciência ainda melhor do que poderíamos fazer de forma isolada”, afirmou Gueiros. Candidatos interessados em participar do projeto podem enviar currículos para fgueiros@iq.usp.br.

Mais informações sobre a chamada SMOLBnet 2.0: www.fapesp.br/smolbnet.

Fonte: Agência FAPESP

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PD em genômica com Bolsa da FAPESP



12/1/2011

Agência FAPESP – O Laboratório de Genética e Biologia Molecular de Fungos da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo tem uma vaga em aberto para Bolsa de Pós-Doutorado.
A oportunidade está inserida no Projeto Temático "Genômica Funcional e Comparativa em Fungos", apoiado pela FAPESP, e tem como objetivo estudar os mecanismos moleculares envolvidos na interação dermatófito-hospedeiro.
Os candidatos devem ter título de doutor e experiência em técnicas de biologia molecular (amplificação, clonagem, sequenciamento, expressão gênica, nocaute gênico). É desejável fluência em inglês e experiência em bioinformática.
Os interessados devem enviar carta de apresentação até 26 de janeiro de 2011 com: motivações quanto à função; breve relato da experiência profissional; curriculum vitae atualizado; nomes e e-mail de dois profissionais para referências.
A vaga está aberta a brasileiros e estrangeiros. O selecionado receberá Bolsa de Pós-Doutorado da FAPESP no valor de R$ 5.028,90 mensais por 24 meses.
Outras vagas de Bolsas de Pós-Doutorado, em diversas áreas do conhecimento, estão no site FAPESP-Oportunidades, em www.oportunidades.fapesp.br.

Fonte: Agência FAPESP

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Genes escolhidos


3/12/2010

Por Elton Alisson
Agência FAPESP – Os milhares de genes que compõem o genoma humano se relacionam entre si por meio de complexas redes de regulação nas quais, em algumas delas, certos genes (denominados canalizadores) controlam o funcionamento de diversos outros.
Para tentar descobrir e simular o comportamento desses genes que podem desempenhar funções importantes no controle regulatório do organismo humano – e que, por isso, podem ser alvos potenciais de novas terapias para o tratamento de doenças – há métodos estatísticos e computacionais que analisam amostras de dados de expressão gênica.
Essas técnicas são limitadas, mas um estudo realizado por David Corrêa Martins Júnior, professor associado do Centro de Matemática, Computação e Cognição da Universidade Federal do ABC (UFABC), deu origem a um novo método computacional e estatístico de caracterização de genes canalizadores e a uma nova ferramenta que possibilita detectá-los com maior eficácia em redes de regulação gênicas modeladas matematicamente.
Resultado de sua tese de doutorado, defendida em 2009 no programa de Pós-Graduação em Computação do Instituto de Matemática e Estatística da Universidade de São Paulo (IME-USP), a pesquisa recebeu menção honrosa no Prêmio Capes de Teses 2009, cujos resultados foram anunciados em 11 de novembro.
O trabalho foi desenvolvido com Bolsa de Doutorado da FAPESP e integrou o Projeto Temático “Modelagem por redes (grafos) e técnicas de reconhecimento de padrões: estrutura, dinâmica e aplicações”.
Na pesquisa, realizada no IME-USP e na Texas A&M University, Martins Júnior estudou as condições matemáticas e computacionais necessárias para o surgimento de genes canalizadores em redes de regulação gênicas. E, a partir desse trabalho de caracterização matemática, desenvolveu uma nova ferramenta que possibilita detectá-los analisando dados de expressão gênica de microarray.
“Essas condições são muito específicas e até então não tinham sido bem estudadas”, disse o professor Roberto Marcondes Cesar Júnior, orientador da pesquisa, à Agência FAPESP.
“Com a caracterização matemática dessas condições é possível criar métodos computacionais de identificação de genes canalizadores mais eficientes do que os que temos hoje”, explicou o também membro da coordenação de Ciência e Engenharia da Computação da FAPESP.
De acordo com Marcondes, uma das formas mais simples de tentar descobrir se um determinado gene controla outro é calculando a correlação entre eles. Porém, para detectar se, de fato, um gene é canalizador em uma rede de regulação gênica, é preciso analisar todos os subgrupos de genes controlados por ele, como duplas, trios ou quartetos.
Ao tentar fazer essas análises por meio dos métodos computacionais e estatísticos disponíveis, os pesquisadores na área de genômica deparam com a barreira da explosão combinatória, em que um pequeno aumento no tamanho do problema causa uma drástica elevação do tempo necessário para obter uma resposta.
Hoje, um teste de comparação de um gene com outro em uma rede de 5 mil genes analisando dados de microrrayleva apenas alguns segundos. Mas, para fazer a correlação de trios, a demora chega a seis meses. Já para comparar quartetos, seria necessário esperar 824 anos. “Isso dá uma ideia de como é inviável sair testando todas as possibilidades de combinação”, explicou Marcondes.
Aplicações em biologia e redes sociais
Por intermédio da pesquisa, Martins Júnior desenvolveu novas ferramentas matemáticas que possibilitam controlar o problema da explosão combinatória.
O modelo matemático desenvolvido foi aplicado em um conjunto de dados de expressão de melanoma contendo amostras de versões ativas e inativas de um gene, o DUSP1, que atua como canalizador. Os testes revelaram que o gene controla, ao todo, 19 subconjuntos de outros genes.
“Quanto maior o número de subconjuntos de genes controlados por um gene, maiores são as possibilidades de ele ser um gene “mestre” em uma via metabólica. Ao interferir nesse gene canalizador, é possível modificar todo um sistema biológico com poucas intervenções”, disse o professor da UFABC.
Segundo Marcondes, além de serem úteis para analisar dados de expressão gênica e detectar genes canalizadores, o modelo e a ferramenta matemática desenvolvidos por intermédio da pesquisa, que já estão prontos para serem usados, também podem ser aplicados em outras áreas distintas da biologia, como psiquiatria ou telecomunicações.
Outra aplicação também poderá ser em redes sociais, como Orkut, Facebook, Myspace e Twitter, para identificar “participantes canalizadores”, isto é, pessoas que influenciam o comportamento de outras na rede.
“Como essas ferramentas são abstratas, não precisamos atacar só dados de expressão gênica. Nada impede que possamos utilizá-las para tratar dados de redes sociais para detectar formadores de opinião nessas redes”, disse o orientador do estudo.
Na biologia, uma das aplicações mais ambiciosas para o novo método e ferramentas matemáticas seria utilizá-los na área de biologia sintética para criação de um organismo que produza etanol de maneira mais eficiente, por exemplo.
“Teoricamente, como o método e a ferramenta possibilitam analisar dados e aprender parâmetros, é possível simular o funcionamento de um organismo antes dele existir e prever ou, pelo menos, analisar como ele se comportará”, disse Marcondes.

Fonte: Agência FAPESP

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Caça que afeta a flora


27/12/2010

Por Fábio de Castro


Agência FAPESP – Uma série de estudos realizados na Mata Atlântica indica que a defaunação – perda de mamíferos e aves devido à caça –, ao modificar as forças seletivas, pode desencadear rápidas mudanças evolucionárias. As pesquisas demonstraram que o processo gera novos impedimentos ecológicos para a população de plantas, afetando sua demografia ao aumentar a predação de sementes.
Os estudos estão relacionados ao Projeto Temático “Efeitos de um gradiente de defaunação na herbivoria, predação e dispersão de sementes: uma perspectiva na Mata Atlântica”, financiado pela FAPESP e coordenado por Mauro Galetti, professor do Instituto de Biociências de Rio Claro da Universidade Estadual Paulista (Unesp).
Galetti, que pesquisa o tema há cerca de 20 anos, apresentou alguns dos resultados do Projeto Temático durante a conferência internacional Getting Post 2010 – Biodiversity Targets Rightrealizada este mês pelo Programa Biota-FAPESP em parceria com a Academia Brasileira de Ciências (ABC) e a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC).
De acordo com Galetti, o Brasil tem 35% das espécies ameaçadas de mamíferos no mundo. A perda de habitat e a fragmentação da floresta são os principais fatores de ameaça, mas metade das espécies sofre com a caça. O tamanho do corpo é um dos preditores de ameaça de extinção. Segundo o cientista, a escala de defaunação é gigantesca em todo o mundo, chegando a 20 milhões de animais mortos por ano em regiões como a África central.
“Verificamos que na Mata Atlântica do Estado de São Paulo há muita caça também. Um de nossos mestrandos entrevistou caçadores por um ano no Parque Estadual da Serra do Mar e constatou que 96 mamíferos haviam sido abatidos”, disse Galetti.
É um número alto, considerando as características da região, segundo ele. Em um Projeto Temático anterior coordenado por Galetti, sobre a conservação de grandes mamíferos, os dados da Mata Atlântica foram comparados com os da Amazônia, indicando a abundância no número de espécies de mamíferos no primeiro bioma.
A abundância de mamíferos na floresta contínua com pouca caça na Mata Atlântica é muito maior do que em locais com caça. No caso da queixada (Tayassu pecari), por exemplo, a abundância é 30 vezes menor em áreas com caça.
Os mamíferos são responsáveis por pelo menos 30% da dispersão das cerca de 2,5 mil espécies de plantas na Mata Atlântica. Mas isso corresponde a um processo complexo que envolve os efeitos da presença de animais de diversos tamanhos com inúmeras relações com as espécies vegetais.
“Desenvolvemos um modelo de redução de megaherbívoros para estudar esses efeitos. Conforme aumentamos a perturbação no modelo, as populações de grandes mamíferos entraram em colapso. Mas, por outro lado, as populações de mamíferos de médio porte chegam a aumentar em áreas perturbadas”, disse.
O modelo, segundo ele, aponta um aumento quase linear na abundância de roedores quando há uma perturbação que leva as populações de grandes mamíferos ao colapso. “Esse modelo já foi testado experimentalmente na savana africana, na observação da abundância de ratos em áreas com e sem elefantes. Quando não há elefantes, a população de ratos aumenta muito”, contou.
Na savana africana, no entanto, há apenas um roedor. Na floresta tropical, com diversidade muito maior de pequenos mamíferos, os processos são mais complexos.
O grupo de Galetti realizou um estudo comparando a abundância de pequenos mamíferos em duas áreas separadas por uma distância de 15 quilômetros. Ambas apresentavam uma diferença considerável quanto à biomassa de mamíferos.
“A riqueza de espécies nas duas áreas era exatamente igual. Mas há uma estrada que passa entre as duas áreas e, de um lado, o ambiente é dominado por queixadas, enquanto do outro lado predominam os esquilos. Com exceção dessa característica, que resulta em uma diferença na biomassa dos mamíferos, as populações de animais nas duas são muito semelhantes”, explicou.
Duas tecnologias foram usadas para avaliar os mamíferos: as armadilhas de interceptação e queda conhecidas como pitfall traps e as armadilhas do tipo live trap. A primeira mostrou mais eficiência para registrar as diferenças na abundância dos animais.
“Avaliamos se a diferença de abundância das duas espécies nas duas áreas poderia ser decorrência da abundância de cobras, mesopredadores, limitação de recursos e de microhabitat. Mas tudo isso foi rejeitado como hipótese alternativa. A hipótese que estamos aceitando é que a presença da queixada afeta a abundância de pequenos roedores”, disse Galetti.
Dispersão modificada
De acordo com o coordenador do Projeto Temático, espera-se que a predação de sementes seja maior em uma floresta com mais presença de roedores.
“Testamos isso em um estudo com a palmeira Euterpe edulis, que é usada na produção de palmito. Ela tem suas sementes predadas por aves e muitas espécies de mamíferos. Escolhemos quatro áreas sem queixadas e três com queixadas para fazer o estudo”, contou Galetti.
Os pesquisadores instalaram, nas áreas escolhidas, câmeras que permitem calcular o número de sementes predadas. “Nas áreas defaunadas, sem as queixadas, a predação de sementes por roedores cresce consideravelmente. Nos fragmentos defaunados só os roedores predam as sementes da palmeira, mas a proporção dessa predação é aumentada em seis vezes”, disse.
Além do aumento na predação, as áreas defaunadas sofrem com maior dificuldade de dispersão das sementes, que é feita principalmente por animais que as ingerem e as regurgitam em outras partes da floresta.
Em áreas não defaunadas, segundo Galetti, o maior dispersor das sementes do palmito é o tucano. Quando a área é defaunada, o maior dispersor são aves do gênero Turdus, que inclui o sabiá. O problema é que sua capacidade de dispersão não é a mesma, pois trata-se de uma ave sete vezes menor que o tucano.
“As aves grandes consomem sementes maiores. Testamos isso com aves em cativeiro. Na área defaunada, há uma redução do tamanho das sementes dispersas. As plântulas que se originam das sementes grandes têm mais vigor e podem sobreviver mesmo depois de ser parcialmente predadas”, disse.
Os estudos mostraram também que, nas áreas defaunadas, as sementes maiores apresentam maior chance de escapar da predação, devido à ausência de predadores de médio e grande porte. “Sementes menores sofrem maior pressão de predação”, disse Galetti.

Fonte: Agência FAPESP

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Mudanças climáticas, somadas ao aumento populacional, podem aumentar as vulnerabilidades socioambientais das cidades do litoral paulista



27/12/2010
Por Elton Alisson
Agência FAPESP – As mudanças climáticas, somadas ao crescimento populacional causado, em grande parte, pela construção de empreendimentos voltados à exploração de petróleo e gás, podem aumentar as vulnerabilidades socioambientais das cidades do litoral do Estado de São Paulo aos eventos climáticos extremos, segundo pesquisa feita no Núcleo de Pesquisas Ambientais (Nepam) da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).

De acordo com Lúcia da Costa Ferreira, coordenadora da pesquisa, por suas próprias características ecológicas a zona costeira do litoral paulista já é muito sensível a qualquer alteração climática, como chuvas intensas. Com o aumento do número de moradores nos últimos anos, atraídos pela oferta de emprego principalmente no setor petrolífero, a infraestrutura das cidades litorâneas do Estado de São Paulo tende a piorar. Em função disso, elas podem se tornar mais frágeis para enfrentar os riscos de acidentes e desastres naturais, como deslizamentos de encostas e inundações.

“Há locais na faixa litorânea onde a área disponível para ocupação humana, que vai do sopé do morro ao mar, é muito pequena. Qualquer alteração no nível no mar nessas áreas pode provocar impactos violentos”, disse Lúcia à Agência FAPESP.

Para identificar as vulnerabilidades socioambientais apresentadas pelos municípios situados em todo o litoral do Estado de São Paulo em relação aos possíveis impactos das mudanças climáticas, e identificar quais as adaptações terão que promover para enfrentá-las, foi iniciado em 2009 o Projeto Temático "Crescimento urbano, vulnerabilidade e adaptação: dimensões ecológicas e sociais de mudanças climáticas no litoral de São Paulo", apoiado pela FAPESP.

Coordenado inicialmente por um dos principais especialistas no Brasil em demografia e mudanças ambientais, o professor do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (IFCH), da Unicamp, Daniel Joseph Hogan, que morreu em abril, o projeto multidisciplinar é dividido em quatro componentes.

No primeiro, “Crescimento e morfologia das cidades e vulnerabilidades das populações, infraestruturas e lugares”, liderado pelo professor do Departamento de Demografia do IFCH-Unicamp, Roberto Luiz do Carmo, estão sendo analisados o crescimento populacional das cidades litorâneas paulistas, as vulnerabilidades das populações e suas infraestruturas para enfrentar os eventos climáticos.

No segundo componente, intitulado “Mudança ambiental global e políticas públicas em nível local: riscos e alternativas” e coordenado pela professora do Departamento de Sociologia do IFCH-Unicamp, Leila da Costa Ferreira, são estudadas as iniciativas que estão sendo tomadas pelos gestores municipais para preparar as cidades litorâneas paulistas para possíveis mudanças ambientais e impactos das alterações climáticas.

O terceiro componente, “Conflitos entre expansão urbana e cobertura florestal e suas consequências para a mudança ambiental global no Estado de São Paulo”, coordenado por Lúcia, avalia as dinâmicas sociais e os conflitos que estão ocorrendo na região devido à contraposição da expansão urbana com a existência de áreas protegidas na região por inúmeras unidades de conservação ambiental.

No quarto componente, “Expansão urbana e mudanças ambientais no litoral nordeste do Estado de São Paulo: impactos sobre a biodiversidade”, coordenado pelo professor do Instituto de Biologia (IB) da Unicamp e coordenador do programa Biota FAPESP, Carlos Alfredo Joly, estão sendo pesquisados os impactos da expansão urbana e das mudanças ambientais sobre a biodiversidade da região.

“Por meio desses quatro componentes, quisemos abranger tanto as dinâmicas sociais e demográficas, em que o foco são os conflitos sociais e as respostas políticas e institucionais dessas cidades litorâneas para os problemas causados pelas mudanças climáticas, quanto as ecológicas e botânicas, em que o objeto de estudo é a biodiversidade”, disse Lúcia.

Primeiros resultados
Na primeira etapa do projeto, que está sendo concluída no fim de 2010, os pesquisadores identificaram e caracterizaram as dinâmicas sociais, além dos atores governamentais e não governamentais que estão envolvidos nas discussões sobre os impactos das mudanças climáticas nos 16 municípios do litoral paulista.

Paralelamente a esse trabalho, também fizeram um levantamento de experiências em políticas públicas existentes na região relacionadas ao enfrentamento das mudanças climáticas, como fóruns de discussão.

“O número de iniciativas como essas na região se revelou acima da média do que imaginávamos. Há um grande interesse das administrações, principalmente dos municípios de Bertioga, Caraguatatuba e São Sebastião, em manter uma cooperação conosco para a realização de debates e palestras sobre os impactos das mudanças climáticas”, disse Lúcia.

Segundo a pesquisadora, juntamente com Ubatuba, os municípios de São Sebastião e Caraguatatuba, no Litoral Norte de São Paulo, concentram o maior número de novos empreendimentos voltados para a exploração de óleo e gás.

Em Caraguatatuba, por exemplo, está sendo construído a Unidade de Tratamento de Gás (UTGCA) Monteiro Lobato, da Petrobras, que deve entrar em operação no início de 2011.
“Há uma área de conurbação [unificação da malha urbana de duas ou mais cidades] nessa região, onde São Sebastião está sendo utilizado como ‘município dormitório’ pelos operários que trabalham em Caraguatatuba”, disse a cientista.

De acordo com dados do Censo 2010, divulgados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a população do Litoral Norte paulista aumentou 11% nos últimos 10 anos – acima das médias estadual e nacional. Juntas, segundo a pesquisa, as cidades de Caraguatatuba, Ilhabela, São Sebastião e Ubatuba ganharam mais de 50 mil habitantes no período de 2000 a 2010.

“Está ocorrendo uma expressiva urbanização da região como um todo que tende a acelerar ainda mais com a construção desses novos empreendimentos”, disse Lúcia.

Segundo ela, a divulgação dos dados do Censo 2010 pelo IBGE deve contribuir para o avanço das pesquisas realizadas no âmbito do Projeto Temático.

Na segunda fase do projeto, que será iniciada em 2011, os pesquisadores analisarão as informações coletadas e realizarão pesquisas de opinião e grupos focais com os moradores das cidades litorâneas paulistas para levantar suas preocupações com os impactos das mudanças climáticas e a construção dos novos empreendimentos na região.

Mais informações: www.nepo.unicamp.br/pesquisa/projetos/linha7/a_projeto1.html 


Fonte: Agência FAPESP

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